Riscos da Cirurgia Plástica: Como Avaliamos e Minimizamos Cada Etapa do Tratamento
A cirurgia plástica é, antes de tudo, uma cirurgia — e como qualquer procedimento cirúrgico, carrega riscos inerentes que precisam ser avaliados individualmente. Com técnicas modernas, anestesia avançada e protocolos de segurança baseados em evidência científica, é possível reduzir esses riscos a níveis muito baixos e dimensionar o porte de cada cirurgia de acordo com o perfil de saúde do paciente.
Essa é uma verdade que todo paciente precisa entender com clareza antes de tomar sua decisão. Em nossa prática, a segurança vem sempre em primeiro lugar — antes da estética, antes do resultado, antes de qualquer outra consideração. Isso significa que o porte da cirurgia é sempre dimensionado de acordo com o perfil individual de cada paciente, nunca o contrário.
Avaliação individualizada: o primeiro pilar da segurança
Antes de definir a extensão de qualquer procedimento, avaliamos cuidadosamente um conjunto de fatores que determinam o quanto o organismo do paciente pode tolerar com segurança:
Idade biológica e cronológica. Como referência geral em nossa prática, pacientes com menos de 45 anos costumam tolerar bem cirurgias de maior porte; entre 45 e 60 anos, optamos por procedimentos de porte intermediário; acima de 60 anos, reduzimos a extensão da cirurgia para preservar a segurança. Vale destacar que essa é uma régua de orientação clínica, não uma regra rígida — a idade biológica (estado de saúde real do paciente) pesa tanto ou mais que a idade no documento.
Comorbidades. Diabetes, hipertensão e outras doenças sistêmicas precisam estar compensadas antes de qualquer cirurgia eletiva. Operar um paciente fora de controle metabólico ou pressórico aumenta significativamente o risco de complicações.
Tabagismo. O fumo compromete a cicatrização e a perfusão tecidual, sendo um dos fatores mais associados a complicações de ferida operatória em cirurgia plástica.
Peso e composição corporal. O IMC influencia principalmente o risco de complicações menores relacionadas à ferida operatória, mas é a combinação com outras comorbidades — e não o peso isoladamente — que mais determina o risco de complicações maiores. Realizamos a bioimpedância corporal para uma avaliaçao corporal mais profunda e para guiar o paciente no objetivo da melhor composição corporal para sua cirurgia
Histórico cirúrgico, alergias e doenças prévias completam essa avaliação, permitindo um planejamento anestésico-cirúrgico sob medida.
Com o paciente clinicamente otimizado, conseguimos operar com muito mais segurança — sempre equilibrando a idade biológica e cronológica com o porte do procedimento proposto.
Avaliação de risco de trombose: o Escore de Caprini
Um dos instrumentos mais importantes que utilizamos na avaliação pré-operatória é o Escore de Caprini, validado especificamente para estratificar o risco de tromboembolismo venoso (TVP/TEP) em pacientes de cirurgia plástica. O modelo de Caprini estratifica de forma eficaz o risco de tromboembolismo venoso em pacientes de cirurgia plástica e reconstrutiva, sendo que entre os pacientes com escore de Caprini maior que 8, sem o uso de profilaxia medicamentosa, mais de 11% desenvolvem tromboembolismo venoso pós-operatório.
Esse risco não fica restrito apenas aos primeiros dias: entre os pacientes com escore de Caprini entre 7 e 8 ou superior a 8, não há evidência de que o risco de TVP/TEP se limite ao período pós-operatório imediato, o que reforça a importância de mantermos as medidas preventivas por um período adequado após a cirurgia, e não apenas durante a internação.
Com base nesse escore, definimos individualmente o uso de meias de compressão (SCDs), botas de compressão pneumática intermitente (durante a internação), mobilização precoce e, quando indicado, anticoagulação profilática — sempre pesando o benefício da prevenção de trombose contra o risco de sangramento de cada paciente.
Controle da hipotermia: um detalhe que faz diferença
Manter a temperatura corporal durante a cirurgia é uma das medidas de segurança menos visíveis para o paciente, mas uma das mais relevantes clinicamente. A hipotermia perioperatória é uma complicação comum e séria da anestesia e cirurgia, associada a múltiplos desfechos adversos: ela prolonga a duração de ação dos anestésicos inalatórios e intravenosos, bem como dos bloqueadores neuromusculares, aumenta significativamente o sangramento perioperatório e a necessidade de transfusão, além de triplicar a incidência de eventos cardíacos adversos no pós-operatório.
Em cirurgia plástica especificamente, esse cuidado é redobrado, já que grandes áreas de superfície corporal costumam ficar expostas durante procedimentos plásticos e reconstrutores, o que reforça a necessidade de atenção especial à manutenção da temperatura corporal interna ideal. Por isso, utilizamos monitorização contínua de temperatura e dispositivos de aquecimento ativo (mantas térmicas) durante toda a cirurgia.
Tecnologia a serviço da segurança
A evolução tecnológica também é uma aliada direta da segurança cirúrgica. Na lipoaspiração, por exemplo, o uso da tecnologia ultrassônica (VASER | LIPO SOUND 2) permite a fragmentação seletiva do tecido adiposo com menor trauma vascular, reduzindo o sangramento intraoperatório e, consequentemente, aumentando a margem de segurança do procedimento — especialmente relevante em lipoaspirações de maior volume ou combinadas com outras cirurgias.
Outras medidas de controle que adotamos rotineiramente incluem:
- Cirurgia sempre realizada em hospital plenamente equipado, com suporte de UTI e banco de sangue disponíveis
- Anestesiologista de alta qualificação dedicado, com monitorização contínua
- Medicações para redução de sangramento durante o ato cirúrgico
- Equipe cirúrgica completa, com dois a três cirurgiões plásticos atuando em conjunto nos procedimentos de maior porte, reduzindo o tempo cirúrgico e a exposição anestésica
- Meias de compressão pneumática (SCD) e Botas de compressão pneumática intermitente (CPI) para prevenção de trombose
- Protocolos medicamentosos específicos tanto durante a cirurgia (redução de sangramento) quanto no pós-operatório (prevenção de trombose)
Preparo pré-operatório: a segurança começa antes da cirurgia
Um erro comum é pensar que a segurança cirúrgica se limita ao dia da cirurgia. Na realidade, boa parte da prevenção de complicações começa semanas antes, no preparo do paciente.
Fisioterapia respiratória pré-operatória. Em cirurgias que envolvem aumento da pressão abdominal, como a abdominoplastia, a capacidade respiratória pode ser temporariamente reduzida no pós-operatório. Um ensaio clínico conduzido especificamente em pacientes de abdominoplastia demonstrou o valor da fisioterapia respiratória pré-operatória nesse contexto. De forma consistente, estudos em cirurgia abdominal mostram que a fisioterapia pré-operatória previne complicações pulmonares pós-operatórias e está associada à redução de sinais e sintomas de colapso pulmonar e infecção de via aérea, com redução significativa da necessidade de oxigenoterapia e de prescrições de antibióticos. Por isso, indicamos sessões de fisioterapia respiratória e uso de inspirômetro de incentivo (Respiron) no preparo de pacientes para abdominoplastia.
Otimização nutricional. O estado nutricional pré-operatório impacta diretamente a qualidade da cicatrização. Revisões na área de cirurgia plástica indicam que macro e micronutrientes são essenciais para uma cicatrização adequada e que o conceito de pré-habilitação vem ganhando força na cirurgia, envolvendo a otimização nutricional do paciente para potencializar sua capacidade funcional antes do procedimento. Em pacientes de body contouring, isso é particularmente relevante: deficiências nutricionais pré-existentes — como baixa pré-albumina, deficiência de vitamina A, anemia e deficiência de ferro — são frequentes nessa população e podem comprometer a cicatrização se não corrigidas antes da cirurgia.
Uso de cintas compressivas. O uso de malhas e cintas no pré-operatório auxilia no condicionamento da parede abdominal e na adaptação do paciente ao uso pós-operatório, etapa importante especialmente na abdominoplastia.
Segurança pós-operatória: o acompanhamento não termina na sala de cirurgia
Se boa parte da segurança começa antes da cirurgia, a outra parte fundamental continua depois dela. Estudos sobre manejo de complicações em cirurgia plástica mostram que redes interprofissionais de cuidado e um planejamento de alta bem estruturado estão associados à redução das taxas de readmissão hospitalar, e que uma comunicação contínua e bem definida entre paciente e cirurgião permite conduzir de forma detalhada qualquer intercorrência, melhorando os desfechos e reduzindo a sobrecarga de decisões mal informadas pelo próprio paciente.
Na prática, isso significa:
- Acompanhamento próximo da equipe multiprofissional — médico, enfermagem e fisioterapia atuando em conjunto no pós-operatório imediato, não apenas o cirurgião isoladamente
- Consultas de retorno programadas no consultório, para avaliação clínica e da evolução da cicatrização em momentos-chave da recuperação
- Acesso direto 24 horas a mim e à equipe pelo WhatsApp, disponível para esclarecer dúvidas ou identificar precocemente qualquer sinal de intercorrência — o que permite agir rapidamente diante de qualquer sinal de alerta, antes que se torne um problema maior
- Fisioterapia pós-operatória orientada, contribuindo tanto para a recuperação funcional quanto para a redução de complicações como seromas e aderências
Esse modelo de cuidado contínuo é particularmente relevante porque a maior parte das intercorrências pós-operatórias menores — desde dúvidas sobre dreno até dor não controlada — pode ser resolvida rapidamente por telefone ou em consulta ambulatorial quando há um canal de comunicação direto e ágil com a equipe, evitando que o paciente fique inseguro ou que um problema simples se agrave por falta de orientação a tempo.
Por que isso tudo importa
Cada uma dessas medidas — avaliação individualizada de risco, escore de Caprini, controle de hipotermia, tecnologia ultrassônica, equipe completa, preparo respiratório e nutricional, e acompanhamento próximo no pós-operatório — não existe isoladamente. Elas formam um sistema de segurança em camadas, que começa antes da cirurgia e continua até a recuperação completa, onde cada etapa reduz uma fração do risco global do procedimento. É esse conjunto, baseado em evidências científicas e atualizado constantemente, que permite oferecer cirurgia plástica com tecnologia de ponta e tranquilidade real para quem decide se submeter a ela — do planejamento inicial ao último retorno.
Dr Marco Longo – CRM 122.172 – RQE 58.785
Cirurgião Plástico – PhD – USP
Especialista em Contorno Corporal de Alta Definição
Perguntas Frequentes
A cirurgia plástica é uma cirurgia de risco? Sim, é uma cirurgia como qualquer outra e possui riscos inerentes a qualquer ato cirúrgico e anestésico. Por isso a escolha de um bom médico cirurgião, e uma avaliação pré-operatória detalhada e a adoção de protocolos de segurança são etapas obrigatórias, não opcionais, em qualquer procedimento bem indicado.
Existe uma idade limite para fazer cirurgia plástica? Não existe um limite rígido. O que avaliamos é a idade biológica em conjunto com a cronológica: pacientes mais jovens e saudáveis costumam tolerar procedimentos de maior porte, enquanto, à medida que a idade avança, tendemos a reduzir a extensão da cirurgia para preservar a segurança — sempre de forma individualizada.
O que é o escore de Caprini e por que ele é usado? É uma ferramenta validada cientificamente para estimar o risco de trombose venosa profunda (TVP) e embolia pulmonar após a cirurgia. Com base nesse escore, definimos as medidas preventivas necessárias para cada paciente, como meias de compressão, mobilização precoce e, quando indicado, anticoagulação.
Fumar realmente afeta o resultado da cirurgia? Sim. O tabagismo compromete a circulação sanguínea e a cicatrização, aumentando o risco de complicações na ferida operatória. Por isso, recomendamos fortemente a cessação do tabagismo antes de qualquer cirurgia eletiva.
Por que o controle de temperatura durante a cirurgia é tão importante? Porque a hipotermia durante a cirurgia está associada a maior sangramento, maior risco cardíaco e prejuízo na cicatrização. Por isso monitoramos e controlamos ativamente a temperatura corporal do paciente durante todo o procedimento.
Preciso me preparar antes da cirurgia, mesmo estando saudável? Sim. Mesmo pacientes saudáveis se beneficiam de preparo pré-operatório — fisioterapia respiratória (especialmente antes de abdominoplastia), avaliação nutricional, controle de comorbidades e ajustes de hábitos como o tabagismo. Esse preparo reduz significativamente o risco de complicações.
O acompanhamento termina quando eu saio do hospital? Não. A segurança continua no pós-operatório, com consultas de retorno programadas, fisioterapia orientada e acesso direto a mim e à equipe de enfermagem pelo WhatsApp para qualquer dúvida ou intercorrência. Esse contato direto permite identificar e resolver rapidamente qualquer sinal de alerta, sem que o paciente precise ficar inseguro durante a recuperação.
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Referências científicas
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- Management of Plastic Surgery Complications at a Tertiary Medical Center after Aesthetic Procedures — comunicação paciente-cirurgião e desfechos pós-operatórios. PMC11498925.
Nota: este conteúdo tem caráter educativo e não substitui a avaliação médica individualizada. Cada caso deve ser avaliado presencialmente para definição da conduta cirúrgica adequada.

@drmarcolongo





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